PRA TODO O MAL HÁ CURA

Posted: 05 Abril 2009 | | Marcador ,

Passou o filme do Cazuza. Lembro da capa da Veja com ele, o horror! Tanta gente ficou assustada. Eu era adolescente, gay e confuso, morria de medo de transar e pegar uma doença. Era ruim demais ter a sexualidade associada a risco de vida. E Cazuza cantava esse medo, todos os medos de quem estava assistindo à própria morte. Com uma coragem que, suponho, poucos teriam. Eu ficava ali, num canto, remoendo esse medo de querer fazer sexo. E não tinha ninguém para falar sobre isso. Disparar a metralhadora cheia de mágoas. Um cara. Mais um cara.

Aí, anos depois, um médico, claramente homofóbico, me disse que todo homossexual possuía algum tipo de distúrbio emocional. Aquela mesma velha grande novidade: homossexuais são doentes, de alguma forma. Engraçado é que, apesar de estar bem nervoso, e com receio de estar com alguma doença séria, se é que existe doença engraçada, eu não tinha problema algum por ser gay. Eu sou muito hipocondríaco e um pouco medroso. Talvez porque quando comecei a querer sentir desejos, via capas de gays morrendo por causa da AIDS. Aquilo era assustador, ainda é.

Mas ali, de cara pro médico, não era AIDS ou qualquer outra doença que eu tinha. Eu estava com anemia e nem passou pela esfera homossexual o diagnóstico da doença. A questão é que ele fazia perguntas para preencher o questionário e chegar ao diagnóstico. Receitar remédios e conselhos de uma melhor alimentação. Ele perguntou se eu tinha algum tipo de vício, como beber muito e ficar sem comer, ou usar drogas e passar muitas horas sem se alimentar. E na sequência, vinha essa questão de ser ou não gay. Não entendi.

Pra anemia há cura, pra AIDS, não. Fico horrorizado com essa onda de "barebacking" que assola o meio gay, apenas 20 anos depois do boom dessa doença gravíssima. Mas assustadora tão quanto era a homofobia singela daquele médico. O doente ali era ele, gravíssimo, e com pouca chance de recuperação.

Imagem