ESTRELA
Seus irmãos, primos e os amigos riam de você? Chamavam de "mulherzinha"? Ah, não ligue. Ser parecido com uma mulher, na verdade, é sinônimo de força, coragem, capacidade. Foram mulherzinhas que colocaram esses babacas no mundo. Eles não sabem. Na escola, você era o motivo da chacota? Ah, estude mais, seja caxias. Uma mulher que gosta de outras mulheres é só um detalhe, mas se você for uma lésbica inteligente, esse é O detalhe. Sua família inteira não te entendeu, seu pai quase o deserdou, teve que sair de casa? Olha, o que não falta é gente que teve que fazer isso. Por falta de oportunidades de trabalho, porque o pai queria transar com a filha, por causa de você. Há sempre uma saída, sempre. Acredite nisso. Você vai se safar. Eles não aceitam que você seja gay, lésbica? Existem milhões de pessoas que aceitam e até acham isso o melhor que há em você. Lembre-se. Amigos são a família que nos permitem escolher. Escolha bem. Saiba que não há nada errado com você. Para com isso! Que morrer, o quê?! Ninguém vai se matar aqui não. Para se manter vivo não basta apenas ter coragem. É preciso uma fé tão cega que nada possa abalar. É preciso uma alegria que para os gays é até possível, que não se abala, que tem a certeza absoluta que na próxima esquina, algo muito bom vai acontecer. Vai, sim! Acredite. Continue andando, menina que gosta de menina. Mantenha a cabeça erguida. A subida é difícil, mas é lá do alto que a gente vê o real tamanho das coisas e das pessoas. Finque sua bandeira colorida, respire bem fundo e veja só que alegria há nas estrelas. Longe uma das outras, mas unidas umas às outras porque são iguais, estão umas brilhando para as outras, ocupadas demais em reluzir, pouco se importando para o tamanho da escuridão que há em volta. É por causa de todo o mal que existe que nossa felicidade se explica. Nós não nos conhecemos, mas se você está feliz aí do lado de lá, eu estou feliz também aqui. Ele é gay, ela é lésbica, e isso é o muito pouco a se dizer de alguém.SORRIA

Quando a gente passar, sorria.
Imagem: Reprodução
BE HAPPY
PRA TODO O MAL HÁ CURA
Passou o filme do Cazuza. Lembro da capa da Veja com ele, o horror! Tanta gente ficou assustada. Eu era adolescente, gay e confuso, morria de medo de transar e pegar uma doença. Era ruim demais ter a sexualidade associada a risco de vida. E Cazuza cantava esse medo, todos os medos de quem estava assistindo à própria morte. Com uma coragem que, suponho, poucos teriam. Eu ficava ali, num canto, remoendo esse medo de querer fazer sexo. E não tinha ninguém para falar sobre isso. Disparar a metralhadora cheia de mágoas. Um cara. Mais um cara.Aí, anos depois, um médico, claramente homofóbico, me disse que todo homossexual possuía algum tipo de distúrbio emocional. Aquela mesma velha grande novidade: homossexuais são doentes, de alguma forma. Engraçado é que, apesar de estar bem nervoso, e com receio de estar com alguma doença séria, se é que existe doença engraçada, eu não tinha problema algum por ser gay. Eu sou muito hipocondríaco e um pouco medroso. Talvez porque quando comecei a querer sentir desejos, via capas de gays morrendo por causa da AIDS. Aquilo era assustador, ainda é.
Mas ali, de cara pro médico, não era AIDS ou qualquer outra doença que eu tinha. Eu estava com anemia e nem passou pela esfera homossexual o diagnóstico da doença. A questão é que ele fazia perguntas para preencher o questionário e chegar ao diagnóstico. Receitar remédios e conselhos de uma melhor alimentação. Ele perguntou se eu tinha algum tipo de vício, como beber muito e ficar sem comer, ou usar drogas e passar muitas horas sem se alimentar. E na sequência, vinha essa questão de ser ou não gay. Não entendi.
Pra anemia há cura, pra AIDS, não. Fico horrorizado com essa onda de "barebacking" que assola o meio gay, apenas 20 anos depois do boom dessa doença gravíssima. Mas assustadora tão quanto era a homofobia singela daquele médico. O doente ali era ele, gravíssimo, e com pouca chance de recuperação.
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SEU COMPUTADOR
Deus acha graça de tudo isso, dos gostos pessoais de seus filhos próximos, ou dos que longe vivem. Acha particularmente risível a tentativa vã que certos filhos fazem de tentar explicá-lo. De dizer o que fazer para agradá-lo. Ele fica impaciente porque os homens, ah, filhinhos, não sabem o que fazem porque pegam um livro antigo, cheio de pensamentos que não se renovam e regras que não se adaptam a nada e passam a pregar. O Filho comenta que eles pregam é peças e Deus ri e balança a cabeça, olhando pro chão. Deus tem a paciência do mundo. E depois que Ele olha abaixo, flores nascem vagarosamente sem ruído.
Deus então não está na igreja católica, nunca esteve. Tampouco nos templos evangélicos, nos programas da madrugada na TV, na Missa do Galo. Vaticano? Deus nem lembra mais onde fica. Ele está lá, porque está em todo lugar, mas você não pode achá-lo, entende? O Todo-Poderoso está em outros lugares.
Deus está no suor que escorre nas costas, de muito cansaço, por tanto trabalhar nesse país tropical. O homem exausto não vê, mas sente. Deus está lá. Ele está no suspiro de paciência que o namorado solta para não brigar com o outro. São gays e namorar já está tão difícil pra todo mundo, imagina para os viados, que vivem desafiando estereótipos. Deus se espalha no ar que sai da boca do namorado resignado. E o seu amor sente. Não vê, mas sente. Deus se ajunta de novo e os faz ficarem juntos. Deus está na mão que segura o filho recém-nascido, a mãe meio dormindo, meio acordada dá o peito para o filho, que nem sabe disso direito, e se alimenta e cresce e depois esquece. Deus, não.
Deus está nisso, naquilo que é ínfimo, centesimal, pouco explicável. Ele está nos espaços entre as palavras quando sinceras. No barulho que fazem moedas de centavos. Ele está na sandália Havaianas furada, na goteira, na cama que range. Deus tarda, jamais falha e sempre espera. Ele também está na bolsa cheia de dólares, no salto scarpin, no corredor do shopping. Mas se é caro, é pra poucos, e Deus é social. Deus gosta de ser popular.
Jesus tem razão quando acha divertido as tentativas megalomaníacas dos homens em representá-los. Todos equivocados. Deus não está no meio de multidões, nas imagens ricas ou nas sacristias caras. Deus não se mostra pelo papa, o padre ou o pastor. Ao invés disso, e muitos antes pelo contrário, Ele está no avesso de um pedaço de pão, o mais pequeno, e no pouco que cabe de bebida vermelha na taça barata. Deus se despede na mão daqueles que escrevem torto. Na hora em que seu computador está salvando as suas configurações, Ele continua ligado. Deus sempre esteve certo, ao lado, e por perto.

Imagem: Darker Me
1ª DE ABRIL*
_ Olha, mona, vou te dizer: eu já fiquei com os grandes, viu. Assim, g-r-a-n-d-e mesmo, falando igual àquela menina do comercial do Tang.
_ Ai, viada, cê tá cacura, hein? Eu sei lá de comercial de Tang. Bebo isso, não, bicha!
_ É, cê bebe é pinga que eu sei, cachaceira.
_ Gente, cê num ia contar alguma coisa que começa com "grande"? Deve ser muito melhor que esse papo.
_ É, já fiquei com grande e já fiquei com pequeno...
Uma olhou pra outra, 3 segundos de silêncio, depois falaram juntas:
_ R-O-D-A-D-A!
_ Sou sim, e daí? Eu dei, peguei de volta, lavei e tô linda! E vou te contar: o pequeno funcionava muito mais.
_ Cê tá louca! Toco só serve pra fazer fogueira em ilha abandonada, mona. Tá bonita?
Elas se olharam de novo, mais 3 segundos de silêncio, e soltaram:
_ 1º DE ABRIL!!!
_ Ai, mona, ainda bem. Achei até que cê tava falando sério. Ia começar a sair com anão de jardim, ver duende, aff...
_ É, aquela coisa Xuxa, cê viu?
_ Eu não! Cê tá louca? Ficar em casa sábado à noite...
* O título do post tá certo: é 1ª mesmo.
Imagem: Reprodução
VAI CAVILL
Imagens: Reprodução
QUE
que por hora dorme no copo d'água
que mate a sede que permanece
por não ter vivido o que não pude
que seja açude a falar como fonte
que leva embora o que for anseio
que me acerte bem no meio
palpitante
e me cubra por inteiro
que me leve o mais longe de mim
e ainda assim
leve
que se demora pois se ainda não veio
que seja breve e depois se demore
para sempre a todo instante.
CALE A BOCA

Vai lembrar de todas as vezes em que ela murmurou uma música preferida, enrolada na toalha, cheirando ao sabonete que você comprou. Daquela amiga vendedora da Natura, insistente e inconveniente, que lhe deixou de cara amarrada e você, para que sua ex não ficasse chateada, fez a cortesia de comprar qualquer coisa pra ela sumir da sua frente. Você vai se lembrar do cheiro dela no sutiã trocado que vestiu por engano. Vai se lembrar dela quando passar o filme com sua atriz preferida. Você vai se lembrar muito mais das vezes em que calou-se diante do surpreendente: ela era estonteante em qualquer ocasião. Mesmo quando chegava estourada de cansaço, carregando sacolas de supermercado às 6 da tarde. Vai ser tão intrigante porque ela vai parecer que está em todos os lugares quanto mais você percebe que ela já não está ali. Se você ainda não consegue esquecer e a ideia de pedir pra sua namorada voltar pra você é menos humilhante que suportar essa dor em silêncio, não cale a boca. Se você levar outro "não", já está acostumada; nem vai doer. Mas pode ser um "sim", quem sabe ela pensa nas mesmas coisas que você?
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